Vai aí a primeira parte de um conto que bolei. Embora seja narrado em primeira pessoa, a personagem é fictícia. O resto do blog é verdade.
Mais um Campeão de Audiência
I
Olá. Você me conhece. Estou na tevê toda semana, horário nobre. Você também pode aparecer, mas se for na minha hora sai caro. Cem mil reais cada dez segundos. Aqui pro Andy Warhol que no futuro todo mundo vai ter quinze minutos de fama. No meu show, não. É o programa mais comentado do país. Tenho controle sobre tudo no meu show. Há o meu dedo em cada figurino, em cada enquadramento daquilo que uma vez ouvi um fã dizer que é sua única hora de felicidade na semana. Veja bem você o tanto que meu show é importante. Consigo unir o carisma do Sílvio Santos à virilidade do Wando, sem falar no meu incomparável talento para protagonizar as histórias, algumas escritas do meu próprio punho. Como diria o Larry King, sou o autêntico one-man show.
Tento surpreender a cada semana. Uma vez é uma sitcom, – sou também um ótimo humorista – na outra já é uma aventura policialesca com um cara cínico e durão. As músicas são um capítulo à parte. É claro que todos querem ter suas canções escolhidas para o meu show, então tem sempre um bando de puxa-sacos de gravadoras me dando cds para eu ouvir no meu importado alemão vermelho e então decidir quem vai ter a honra de animar minhas peripécias na tevê. Mas eu só mexo com biscoito fino. Afinal de contas, já me tornei um referencial, tanto pela qualidade técnica do meu show quanto pela imaginação de meus redatores. Para não parecer pedante não vou nem mencionar a edição ágil e a fotografia esmerada. Saio com a produção em busca das melhores locações, como já disse, nada acontece no meu show sem que eu não saiba. Logo vamos estrear a nova temporada, trazendo muitas inovações. Temos três idéias prontas, com sinopse e tudo e cabe a eu escolher qual delas irá ao ar. Na primeira, ao som de música trance, sou um jovem herdeiro de um bilionário que foi assassinado, mas que todo mundo acha que morreu do coração. Na outra sou um superespião equipado com um foguete nas costas que faz ele voar enquanto toca aquela música de discoteca dos anos 70, Ring my Bell. Alguém aí conhece esta? Sabia que ninguém ia conhecer, esta juventude é tão alienada que meu sobrinho já tem dezenove anos e nunca viu Os embalos de sábado à noite. A última opção conta a história de um estudante universitário toxicômano que transita por desde favelas até restaurantes caros, lançando um olhar singular ao caos urbano, meio existencialista. Não estou preocupado com a escolha, sei que qualquer um vai ser um tremendo sucesso, mas desta vez quero fazer algo mais audacioso, mais autoral, então vou ficar com esta última sinopse, tocando “Hey bulldog”, dos Beatles, na abertura. Amanhã mesmo mostro o roteiro para os mandachuvas e descolo uma verba. (continua amanhã. Não deixem de visitar, a história é imperdível)


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