World of The K


05/03/2005


Vai aí a primeira parte de um conto que bolei. Embora seja narrado em primeira pessoa, a personagem é fictícia. O resto do blog é verdade.

 

Mais um Campeão de Audiência

I

 

Olá. Você me conhece. Estou na tevê toda semana, horário nobre. Você também pode aparecer, mas se for na minha hora sai caro. Cem mil reais cada dez segundos. Aqui pro Andy Warhol que no futuro todo mundo vai ter quinze minutos de fama. No meu show, não. É o programa mais comentado do país. Tenho controle sobre tudo no meu show. Há o meu dedo em cada figurino, em cada enquadramento daquilo que uma vez ouvi um fã dizer que é sua única hora de felicidade na semana. Veja bem você o tanto que meu show é importante. Consigo unir o carisma do Sílvio Santos à virilidade do Wando, sem falar no meu incomparável talento para protagonizar as histórias, algumas escritas do meu próprio punho. Como diria o Larry King, sou o autêntico one-man show.

Tento surpreender a cada semana. Uma vez é uma sitcom, – sou também um ótimo humorista – na outra já é uma aventura policialesca com um cara cínico e durão. As músicas são um capítulo à parte. É claro que todos querem ter suas canções escolhidas para o meu show, então tem sempre um bando de puxa-sacos de gravadoras me dando cds para eu ouvir no meu importado alemão vermelho e então decidir quem vai ter a honra de animar minhas peripécias na tevê. Mas eu só mexo com biscoito fino. Afinal de contas, já me tornei um referencial, tanto pela qualidade técnica do meu show quanto pela imaginação de meus redatores. Para não parecer pedante não vou nem mencionar a edição ágil e a fotografia esmerada. Saio com a produção em busca das melhores locações, como já disse, nada acontece no meu show sem que eu não saiba. Logo vamos estrear a nova temporada, trazendo muitas inovações. Temos três idéias prontas, com sinopse e tudo e cabe a eu escolher qual delas irá ao ar. Na primeira, ao som de música trance, sou um jovem herdeiro de um bilionário que foi assassinado, mas que todo mundo acha que morreu do coração. Na outra sou um superespião equipado com um foguete nas costas que faz ele voar enquanto toca aquela música de discoteca dos anos 70, Ring my Bell. Alguém aí conhece esta? Sabia que ninguém ia conhecer, esta juventude é tão alienada que meu sobrinho já tem dezenove anos e nunca viu Os embalos de sábado à noite. A última opção conta a história de um estudante universitário toxicômano que transita por desde favelas até restaurantes caros, lançando um olhar singular ao caos urbano, meio existencialista. Não estou preocupado com a escolha, sei que qualquer um vai ser um tremendo sucesso, mas desta vez quero fazer algo mais audacioso, mais autoral, então vou ficar com esta última sinopse, tocando “Hey bulldog”, dos Beatles, na abertura. Amanhã mesmo mostro o roteiro para os mandachuvas e descolo uma verba. (continua amanhã. Não deixem de visitar, a história é imperdível)

Escrito por The kay às 14h10
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Essas loucuras de sempre. Fumo crack até às 7 da manhã de sexta e durmo até 22. Perdi 2 trabalhos na faculdade.

Escrito por The kay às 13h10
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03/03/2005


I´m a hero like Robert de Niro

Pois ontem eu acordei e resolvi não ficar na cama - estava trocando o dia pela noite - e fui pagar umas contas, cortei o cabelo, fiz a barba, essas coisas que gente deprimida faz quando não está tão deprimido. No fim da tarde busquei minha irmã para irmos juntos a um dentista grã-fino que nos devia uns recibos - temos problemas com o IR. Bacana mesmo o consultório do cara. Colocam Mr. Bean prá você assistir enquanto furam sua boca - e seus olhos, nunca vi dentista tão caro. Na recepção fomos informados que o digníssimo governador aécio chegaria às 6 para uma consulta. As secretárias ficaram em polvorosa. Fomos embora sem os recibos - o cara é um picareta sonegador - e sem ver o figuraça.

Engarrafamento monstro prá chegar na PUC. Mandei o elemento - isto é, administrei a droga de minha predileção, no banheiro e entrei na sala. A codeína causa uma euforia inicial, e se eu já sou participativo nas aulas "de cara", drogado então é que eu falo mesmo. Mais no final da aula saí prá fumar um cigarro e disseram que a professora sentiu minha falta no debate. Fiquei feliz. Em geral me sinto um merda inútil. No intervalo fumei maconha e fiquei num estado, digamos, deplorável. Pinguei um colírio e fui prá aula de economia. Continuei dando palpites e fazendo perguntas até que comecei a dar umas cochiladas. Lá fora, a chuva continuava desde de manhã. Voltei com a sis, dormi cedo, acordei cedo hoje... vocês estão assistindo meu revival. Minha mulher viajou, uma oportunidade de ouro para minha estripulias, coisas que envolvem doses maciças de drogas, mas não estou afim. Vou estudar Goebbels e marketing político - aí você valorizou, hein?

Comentem, o desprezo é o pior sentimento que pode-se ter por alguém.

Escrito por The kay às 14h46
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Eu, robô

Andava de modo automático, passando pelas pessoas que via diariamente sem cumprimentá-las. Olhar para a cara de cada um, checar se é "cumprimentável" no arquivo e em caso positivo, decidir qual tipo de cumprimento. Isso tudo acontecendo dezenas de vezes, cada vez durando frações de segundo. Não, aquilo era muito trabalhoso, cansativo, além de perigoso. Algumas pessoas são imprevisíveis, poderiam causar algum tipo de embaraço, expô-lo ao ridículo, porque, de fato, ele era um cara meio devagar. Então não cumprimentava ninguém, olhava no rosto das pessoas mas são apenas imagens borradas, não remetem a nada, não têm valor nem significado. Desse modo ele poderia ficar imerso em seu mundo interior, distraído com pensamentos desconexos, relembrando seus filmes, suas músicas, seus programas de tv. Coisas previsíveis, cujo início, meio e fim sempre estarão no mesmo lugar, não havendo risco de ser surpreendido com algo inesperado. Isso sem falar que ao conversar com alguém seu rosto ou sua linguagem corporal poderiam traí-lo, como se dissessem: "não preste atenção nas minhas palavras, estou me escondendo atrás delas."

Escrito por The kay às 14h45
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Mais um cara legal que se mata

Lembrei-me do Kurt Cobain. Morreu há uns dias atrás o jornalista norte-americano Hunter S. Thompson. Maluco, drogado e talentoso, criou um novo tipo de reportagem investigativa onde literalmente mergulhava no assunto que queria pesquisar. O cara era tão louco que infiltrou-se na violenta gangue de motoqueiros "Hell´s Angels" a fim de desmistificar todas as lendas que circulavam a respeito deles. Acabou achando os caras um bando de babacas e foi espancado por isso. Fascinado por armas de fogo, deu um tiro na cabeça num ato premeditado. Recomendo assistir o filme "Medo e Delírio", adaptado de um livro seu, para conhecê-lo um pouco. Um minuto de silêncio em honra desse homem corajoso, autêntico e criativo - atributos em falta em muitos jornalista

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Capa do livro, foto do autor, Johnny Depp (como Thompson) e Benicio del Toro (!) e o cartaz do filme

Escrito por The kay às 14h45
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Ficar em casa observando a chuva

Seria muito fácil culpar a família ou a sociedade pelos meus infortúnios. Dizem que a idéia que você tem de si-mesmo indica a sua visão de mundo. Pois acho o mundo um lugar injusto, as pessoas estão perdidas em busca de algo que transcenda a mera acumulação de bens - pois essa é a razão de viver de muita gente. A Humnidade é como um bebê manuseando um revólver carregado. Que fazer com tanta tecnologia? Carros com parafernálias inúteis prá fazer inveja no seu vizinho? Plásticas para celebrar o culto da beleza e juventude? Armas?

Felizmente, muitos pensam sobre esse paradoxo. Não aceitam as coisas assim, de bandeja, sem questionamento. Já sonhei em mudar o mundo. Hoje minha vida remete a essa música:

 

Time (tradução)


 

by Mason, Waters, Wright, Gilmour



As horas passam marcando os momentos
Que se vão, que formam um dia monótono
Você desperdiça e perde as horas
De uma maneira descontrolada
Perambulando num pedaço de terra
Na sua cidade natal
Esperando alguém ou algo
Que venha mostrar-lhe o caminho

Cansado de deitar-se na luz do sol
De ficar em casa observando a chuva
Você é jovem e a vida é longa
Há tempo de viver o hoje
E depois, um dia você descobrirá
Que dez anos ficaram para trás
Ninguém te disse quando correr
Você perdeu o tiro de partida

E você corre e corre para alcançar o sol
Mas ele está indo embora no horizonte
E girando ao redor da Terra para se levantar
Atrás de você outra vez
O sol permanece, relativamente, o mesmo
Mas você está mais velho
Com o fôlego mais curto
E a cada dia mais próximo da morte

Cada ano está ficando mais curto
Nunca você parece ter tempo.
Planos que tampouco deram em nada
Ou em meia página de linhas rabiscadas
Insistindo num desespero quieto
É a maneira inglesa
O tempo se foi, a canção terminou
Pensei que tivesse algo mais a dizer

Escrito por The kay às 14h44
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Apresentando The K

Houve um tempo em que eu era diferente. Sentia que estava crescendo espiritualmente, as barreiras de minha timidez eram derrubadas, estava me assumindo como eu mesmo. E fazia descobertas a respeito de mim mesmo e do mundo. Não tenho religião, mas creio numa ordem, uma harmonia universal. Me sentia em sincronia com ela. Eu tinha 20 anos e me dava o direito de sonhar e acreditar no meu sonho.

Aí vieram as drogas. A princípio como forma de auto-conhecimento, depois virou lazer e quando me dei conta elas tinham se tornado minha razão de viver. Viciei num derivado de morfina (uns comprimidos) e iniciei um processo implacável de aniquilação de todos os meus projetos. Passei no vestibular de publicidade em 94 e até hoje não concluí o curso. Não tenho emprego, vivo da herança do meu pai.

O que agrava  (ou atenua) ainda mais o problema é o fato de eu ser casado. Casei-me pouco depois da morte de meu pai porque buscava uma certa segurança. Não escolhi minha esposa, assim como Fernando Sabino (O Encontro Marcado), eu fui o escolhido. Ela me ama muito mais do que eu a amo, e é maravilhosa comigo, talvez a única pessoa que acredita em mim. Mas sua força está se esgotando, pois ajo como um vampiro emocional. Me internei 5 vezes, mas não consigo ficar mais de 6 meses limpo. Há muita coisa por trás desse fracasso.

 

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Então, a partir de hoje vou narrar meus dias de uma forma o menos entediante possível. Vou falar de outras coisas também, provavelmente um bocado de cinema. Por favor, deixem seus comments, nem que seja para me escorraçar. Retribuirei todas as visitas. Preciso de fé, essa virtude inestimável que consiste em acreditar em algo que não pode ser tocado ou que ainda não ocorreu.

Escrito por The kay às 14h43
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